quinta-feira, 2 de março de 2023

 

Abertura da Época Salmonídea


Quando este artigo chegar às mãos dos nosso leitores, já muitos pescadores puderam deleitar-se com a captura de belos exemplares de truta.

Este peixe apaixona-nos de forma estranha. É uma das espécies mais apreciadas pelo pescador desportivo e é um peixe simultaneamente vigoroso e delicado, astuto e de hábitos previsíveis, de formas esbeltas e bonita coloração.

Não é por acaso que poetas e artistas de todo o mundo se deixaram inspirar por tão fascinante peixe.

Por tudo isto não admira, e é perfeitamente justificável, a ansiedade que se vive durante a semana que antecede o dia da abertura.

É assim, ano após ano, cumprindo com o ritual sagrado, que acontece após meses de preparativos, quer chova ou faça sol, haja frio ou calor, que se aguarda ansiosamente pelo 1º de Março enquanto se vão limpando as linhas, lubrificando os carretos e arrumando as mil e uma moscas que jazem inertes nas dezenas de caixas, à espera de voltearem no ar e desejarem ser engolidas por uma truta faminta.

Finalmente chegou o dia, ou melhor a madrugada! São 6 horas da manhã. Desta vez, o local foi escolhido por força do convite de um amigo e camarada de pescarias, pelo que pela primeira vez desde há longos anos a cerimónia iria ser levada a cabo em águas que não me eram familiares. Quase sempre prefiro fazer a abertura nas minhas correntes favoritas, no rio da minha infância, como alguém que reencontra um ente querido e que não vê há já muito tempo. A abertura continua a ser para mim uma questão de afecto e sensibilidade, muito mais do que um assunto de técnica. Sou eu, o rio, e aquele sentimento de plena liberdade que só conseguimos atingir quando estamos sózinhos no meio do rio. O rio, esse não o vou revelar por razões óbvias. Não quero de maneira alguma contribuir para a pilhagem e vandalismo de que sofrem as nossas águas salmonídeas, já de si escassas e votadas ao abandono pelas autoridades na matéria.

Depois de um lauto pequeno almoço como convém a quem anda nestas lides, oferecido pelo Nuno o nosso anfitrião, para lá nos dirigimos, num grupo de 4 pescadores, dos quais dois são praticantes da modalidade spinning e os outros dois de mosca, entre os quais me encontro.

Ao sair de casa, já se adivinhava que seria um fim de semana frio e chuvoso, mas sempre se tem a esperança que, ao chegar ao local da pescaria, a chuva tenha parado e uma tarde de sol nos permita desfrutar em pleno de uma pescaria com mosca seca.

Ao chegar ao rio, a chuva não tinha parado, e o pior, foi aumentando de intensidade e o impermeável no carro!

Não restava outra solução. Toca de meter nos bolsos as caixas de streamers e afogadas. E a mais elementar honestidade obriga-me a confessar que nesse primeiro Sábado de Março tive um desejo enorme de ferrar a minha primeira truta na ponta de uma medalha nº 3. Talvez uma questão de saudades pelas pescas simples da adolescência que tantos prazeres me trazem à memória.

Escolhemos um local de encontro e fomos todos pescar. Eu e o companheiro que me tocou em sorte decidimos ir rio acima em busca de um lugar adequado para poder lançar comodamente, pois as margens do rio tinham bastante vegetação, muitas árvores e a menos que utilizasse o roll cast, não conseguiria manter a linha por muito tempo no ar sem perder meia dúzia de moscas na densa vegetação ali existente. O rio estava impraticável: águas altas. Muita corrente e pouca ou nenhuma margem para poder caminhar. A maior parte do trajecto foi feito com água pela cintura. Imaginem o suplício! Gastámos nesta caminhada boa parte da manhã.

No início de temporada não dou grande importância à tonalidade das moscas que uso. Prefiro jogar sobre o tamanho, a densidade e o aspecto geral. Dessa forma escolho para mosca de ponta as mais densas e mais fornecidas de pêlo que as do meio que por sua vez são menos arejadas que as últimas, as saltitonas. De qualquer modo, e depois de dois aparelhos que resolveram não regressar ao bolso do dono, trutas nem vê-las! Por esta altura já tinha decidido que se não pescasse nada até à hora do farnel a pesca estaria feita.

Nesta altura da temporada o peixe raramente mostra alguma actividade a não ser durante as horas centrais do dia. Por outro lado, a essas horas corremos o risco de ficar com o rio inteirinho por nossa conta, pois os importunos e malcriados, aqueles que só servem para afugentar peixe e que não respeitam nada nem ninguém, já foram todos embora: a pescaria correu-lhes mal, e ainda bem!


Por volta do meio-dia, o sol começou a despontar. Tínhamos chegado a uma zona de rupturas, limites de águas rápidas com águas mansas, amortecidas por uma infinidade de pedras que quebravam a impetuosidade da corrente e onde a vegetação se tornava mais escassa. Ainda por cima a profundidade do local era a ideal! Perante tal cenário, mudei de ideias e decidi tentar o meu primeiro lançamento com uma wooly bugger preta, atada num anzol #8. Na primeira tentativa fisguei um belo exemplar com uns bons 30cm de comprimento. Depois da fotografia da praxe, rio com ela! Continuo no mesmo local e só passada uma boa hora consigo fisgar outra, de maior porte. Depois desta captura decido regressar, o estômago está a dar horas e estou ansioso por saber como correu a manhã aos meus companheiros.

Uma Pescadora Desconhecida


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