segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023
Delírio Legislativo
As Portarias n.º 768/2006 (2.ª série), de 21 de Abril, e n.º 767/2006 (2.ª série), de 21 de Abril, ambas assinadas pelo Exmo. Secretário de Estado do Desenvolvimento Rural e das Florestas, é mais uma prova e um sintoma claro do espírito de oportunidade, de improviso e de anarquia normativa no que concerne à pesca desportiva em Portugal.
Na minha humilde opinião, não me parece que, considerando a hierarquia dos normativos legais, uma Portaria possa alterar um Decreto ou um Decreto-Lei. E aqui acabaria toda e qualquer discussão sobre o assunto.
Mas, ainda assim, será pertinente tecer alguns comentários sobre o espírito e a letra dessas portarias.
O artigo 11.º do Decreto n.º 44 623, de 10 de Outubro, estipula uma regra que deve ser observada na atribuição de concessões de pesca desportiva, para efeitos de provas ou concursos. Portanto, não se vislumbra a legalidade da invocação desse mesmo artigo para “decretar” a abolição do defeso instituído pelo referido Decreto.
O § 2 do artigo 29.º, do Decreto 44 623, de 10 de Outubro, com a redacção dada pelo Decreto n.º 312/70 de 6 de Julho, antecipa o final do defeso instituído para o dia 15 de Maio, somente para a pesca desportiva. Assim, a Portaria n.º 768/2006 (2.ª série), de 21 de Abril, não pode alargar novamente o período de defeso até 31 de Maio.
Por outro lado, o mesmo § 2 do artigo 29.º, do Decreto 44 623, de 10 de Outubro, com a redacção dada pelo Decreto n.º 312/70 de 6 de Julho, deixa explícito que a referida antecipação do final do defeso não se aplica à realização de concursos. O que configura uma dupla ilegalidade num só artigo…!
A alínea d) do artigo 29.º do Decreto n.º 44623, com a redacção dada pelo Decreto n.º 312/70 de 6 de Julho, menciona a espécies achigã, carpa, barbo, boga e tenca. Por isso mesmo, é notória, no espírito da Portaria n.º 768/2006 (2.ª série), de 21 de Abril, a exclusão de todas as outras formas de pesca que não sejam a pesca de competição de ciprinídeos, pois nas massas de água aí mencionadas existem outras espécies e, consequentemente, outras modalidades de pesca. Contudo, só é feita referência à manga como forma de preservação do peixe, deixando a impressão ao leitor de que essa é a forma por excelência de pescar desportivamente e preservar.
A abolição do defeso para efeitos de pesca de competição não acrescenta nada à preservação das espécies. Pelo contrário, mais peixes morrerão em consequência.
Não se vê uma relação de causa-efeito entre a abolição do defeso para efeitos de pesca de competição e o fomento da pesca sem morte. Dentro dos concursos todos preservam os exemplares porque existe um interesse inerente e imediato: a classificação obtida. Fora dos concursos, perpetua-se a morte indiscriminada de exemplares porque existe um interesse inerente e imediato: o consumo e o reconhecimento social do pescador. Julgo que uma forma mais correcta de fomentar a pesca sem morte seria um investimento sério de esforços, junto das crianças em idade escolar, no sentido de uma educação ambiental mais focada nos recursos aquícolas, em simultâneo com o reforço efectivo das acções de prevenção e fiscalização.
A pesca de competição não se reveste do espírito que encerra a expressão “actividades de recreio e lazer ao ar livre”, mas sim, a pesca desportiva praticada sem qualquer intenção competitiva e não sujeita a regras, calendários, e a todas as contingências que daí resultam.
Relativamente à Portaria n.º 767/2006 (2.ª série), de 21 de Abril, há a salientar o seguinte: Ninguém pode duvidar do enorme interesse e importância de que se reveste o Campeonato do Mundo de Pesca à Truta. Este acontecimento terá repercussões desportivas, económicas, turísticas e sociais, e é um acontecimento sem precedentes no nosso país.
Mas não posso deixar de me preocupar com a forma que os nossos governantes utilizam para tratar assuntos com a importância que têm temas como a preservação das espécies, a gestão dos recursos piscícolas, a regulamentação da pesca desportiva, a educação dos jovens pescadores. Sim, porque é exactamente na medida em que tudo isso falha que se torna necessário recorrer a medidas, no mínimo estranhas, esporádicas, desconexas e sem sustentabilidade e cuja única intenção será porventura fazer com que os atletas que nos visitarem não levem uma impressão demasiado negativa acerca da forma como os portugueses tratam das coisas da pesca e do estado deplorável em que se encontram os nossos rios salmonídeos.
Algo mais me deixa indignado: De um total de 22 fins-de-semana mais 2 feriados, correspondentes à época de 2006, o governo retira-nos a possibilidade de 8 desses dias, ou seja, uma redução de 33%. Apetece-me exigir que me seja devolvida a quantia correspondente a 33% dos gastos realizados com a preparação que fiz para esta época, incluindo, é claro, o custo da licença de pesca nacional, obtida em devido tempo.
Maia LopesO Lixo dos Outros.
domingo, 26 de fevereiro de 2023
Que Tristeza...
Acabo de
passar os olhos por uma revista de pesca portuguesa, edição de Novembro 2007.
De 80 páginas, apenas 7 são dedicadas ao achigã!
Assim não vão lá.
Ou então, é o lobby dos piquelins que não quer deixar de vender canas directas
a 2.000€.
Maia Lopes
Casa roubada, trancas na porta.
Pois é!
Estes inteligentes agora é que começaram a perceber que, afinal, era necessário
promover e incentivar a pesca dos achigãs.
Agora só quando a chucha do Alqueva começar a saber a amargo....
Prémio
Cidade de Abrantes de Pesca Desportiva ao Achigã
12-Out-2007
Organizado pela Secção 1ª Associação Regional de Pesca Desportiva de Rio realiza-se nos dias 13 e 14 de Outubro, um concurso de pesca desportiva, prova de achigã em barco, que tem como objectivo voltar a colocar a Barragem do Castelo de Bode na rota dos pescadores.
O concurso vai decorrer na Barragem do Castelo de Bode, na Aldeia do Mato, Abrantes. A colocação dos barcos na água está marcada para as 8h00, do dia 6, o sorteio para a saída às 9h00 e o início da prova pelas 9h30.
A prova tem para distribuir prémios monetários aliciantes, que vão dos 250 aos 800 euros, tem também outros prémios valiosos para distribuir.
Maia Lopes
Piquelins e Asticots
Eis uma
questão que ainda está por esclarecer:
Porque será que a maioria dos lojistas deste país insistem em querer passar a
vida a vender litros de bicharocos repugnantes para pescar fritadas, e rapalas
de 3cm para pescar peixes que engolem amostras de 15cm?
Ou então, porque é que não contribuem com uma taxa de 0,5% sobre todos os
produtos vendidos que reverta a favor da conservação das massas de água.
Maia Lopes
Vamos às Compras...!
“Uma truta vive num mundo secreto. É um pequeno mundo, no qual muitos eventos dramáticos se desenrolam numa aquática obscuridade, velada para os olhos mais ingénuos. E mesmo apesar de ser acossada e perseguida pela mais atenta criatura que existe à face da terra, o seu estilo de vida permanece um mistério. Exceptuando circunstâncias forçadas, apenas temos instantâneos, flashes, pistas visuais da sua presença, raramente nos oferecendo uma total exposição”.
Vincent C. Marinaro, “In The Ring of The Rise”
No que diz respeito aos salmonídeos, a pesca com mosca artificial é a pesca por excelência, pois não se resume simplesmente numa técnica ou conjunto de equipamentos. Ela é também, e acima de tudo, uma atitude, uma filosofia de pesca, um código de valores e preceitos morais conducentes a uma postura muito bem definida perante questões importantes e actuais, tais como o ambiente e a preservação das espécies.
Muito se tem escrito sobre o tema e muito mais se escreverá ainda. Pelo que, corremos sempre o risco de transformar qualquer regra numa visão pessoal e tendenciosa da questão. Excelentes pescadores de mosca produziram grandes escritores - como é o caso de Gary Lafontaine ou Vincent Marinaro – muitos dos quais, infelizmente, já não pescam ao nosso lado.
Dei início, com este artigo, a uma série de textos, mais ou menos técnicos, mais ou menos filosóficos, cujo objectivo é o de conduzir com mão amiga o mosqueiro aprendiz que se inicia agora nos desalentos e prazeres desta escola de vida. Dada a vastidão do assunto começaremos por uma abordagem, simples e em traços gerais, ao equipamento, não esquecendo o bolso de cada um e, por isso mesmo, tentando balizar os custos da aquisição de material dentro de certos limites. Futuramente, os vários aspectos e problemáticas serão objecto de análises mais profundas e detalhadas.
Cana
Cada roca com seu fuso e cada pescador com a sua cana. Esta é uma verdade incontestável. E se o hábito faz o monge, já o mesmo não se poderá dizer acerca do pescador. De facto, possuir e usar canas sofisticadas, construídas com as mais modernas tecnologias e materiais da era espacial, e que custam muitas dezenas de contos, não fará de nós melhores pescadores. Não basta ter nas mãos um bom instrumento para que se lhe possa arrancar da alma a mais bela das melodias. Um Stradivarius soaria horrivelmente nas mãos de um executante medíocre. Do mesmo modo, uma cana excelente, não ajudará a pescar mais e melhor se o instrumentista não for capaz de a dominar com mestria. Tal não significa, contudo, que se deve optar pela cana mais barata que encontremos à venda no mercado. O barato sai caro...! e há certos pormenores e características de uma cana que não devem ser menosprezados aquando da sua compra. Refiro-me à qualidade dos acabamentos, com especial destaque para os encaixes, ataduras, passadores, cortiça do punho e rosca do porta-carretos. Não menos importante, é a forma como a transportamos. O saco que geralmente é fornecido com cada cana não é suficiente para o efeito, uma vez que não oferece protecção contra choques violentos ou portas de automóvel. Faça um favor a si próprio e adquira (caso não venha já incluído no preço da cana) um bom tubo de alumínio para o efeito. A pesca com mosca seca é sempre a modalidade escolhida pelos principiantes, quer pela sua espectacularidade, quer pela facilidade em capturar a primeira truta. Assim, aconselha-se a compra de uma cana para linha nº 4 com um tipo de acção média–rápida.
Linha
Não existe uma linha universal, que sirva para tudo. Muitos pescadores defendem o uso de uma linha flutuante DT-5 (nº 5 duplo fuso). Invocam duas razões para tal: com essa linha conseguimos lançar moscas pequeníssimas e extremamente leves, tais como uma mosca seca nº20, mas também moscas grandes e pesadas do género ninfa nº12 bem lastrada ou um pequeno streamer. Por outro lado, é uma linha económica pois quando estiver uma ponta gasta e estragada poderemos sempre virar a linha ao contrário, ou seja, usar a outra ponta que continua como nova.
É uma argumentação falaciosa que sacrifica a eficácia face ao peso do dinheiro. O problema que se coloca é que não existe uma linha que faça tudo bem. Logo, se queremos pescar com mosca seca e lançar bem, a melhor opção será a de usar uma linha desenhada para a pesca com mosca seca. Uma boa linha flutuante WF nº4 cumprirá na perfeição o que se lhe pedir. O mesmo se diz da pesca com moscas mais pesadas que é o caso das ninfas e dos streamers. Neste caso, a solução passa por uma flutuante WF nº6. A questão da configuração da linha, duplo fuso (DT) ou peso à frente (WF), levanta, para o aprendiz, alguns problemas, e se atendermos ao orçamento então o melhor será mesmo o duplo fuso, pelas razões já enunciadas. Contudo, sugiram no mercado novos perfis, bastante agradáveis nas suas prestações, que combinam o melhor dos dois mundos. São as chamadas linhas triangulares. Pessoalmente, uso um conjunto constituído por uma linha triangular TT-3 e uma cana de 2.30m (7.6”) de acção média-rápida que se comporta às mil maravilhas.
As linhas para pesca com mosca
significam sempre um desembolso importante para o pescador, e por isso mesmo,
merecem sempre o máximo de cuidados com a sua manutenção. É um material
relativamente frágil e que deve deslizar suavemente por entre os anéis da nossa
cana. Gastar mais algum na compra de um produto de limpeza e lubrificação de
linhas significará proteger o investimento feito. Caso contrário, nenhuma linha
durará mais que duas temporadas seguidas.
Carreto
Sobre esta peça fundamental pouco há a dizer, no âmbito deste artigo, é claro! Pelo menos quando se trata de escolher o nosso primeiro carreto. A minha preferência vai sempre para o carreto mais leve que consiga encontrar, dentro do orçamento geral que à partida tenha definido. Ao fim de uma jornada de pesca o nosso braço estará destroçado. Por isso, todo o peso que se consiga eliminar é sempre uma benesse para o pescador. Comprar vários carretos é uma opção cara, mas existem no mercado carretos relativamente baratos para a qualidade de construção que apresentam e que, ainda por cima, oferecem, incluída no preço, uma ou duas bobinas extra. Tente, na medida do possível, conjugar o factor peso com um bom travão de disco. Este ser-lhe-á imprescindível se tentar aventurar-se pela pesca de barbos com mosca!!
Conectores, Leaders e Terminais
Caixa de Moscas
As moscas são como moscas! Quero dizer, em tempo recorde, verá a sua colecção de moscas aumentar a um ritmo vertiginoso. Portanto, um conselho: compre uma boa caixa e de grande capacidade. As de alumínio com 8, 16 ou 32 compartimentos são óptimas. Custam os olhos da cara, mas não se irá arrepender com toda a certeza. Quanto à colecção de moscas o melhor que tem a fazer é seguir o conselho de uma loja especializada na pesca com mosca. Fica o aviso, em Portugal estas lojas são raras, mas existem. Ou então, esperar pelos próximos artigos onde esta questão específica será abordada com mais detalhe.
Colete
Deverá ser curto para que possamos vadear, ou seja, entrar pela água dentro até à cintura ou mais sem que tudo aquilo que transportamos nos bolsos fique transformado em papa. Disponibilizar pelo menos 6 bolsos à frente com medidas normalizadas (4 para caixas de 16x9x3 e 2 para caixas de 11x9x2). Vários bolsos interiores e um bolso enorme nas costas que servirá para o transporte do impermeável. Vários anéis para pendurarmos corta- fios, tesoura e sei lá que mais. Um pedaço de pele de borrego e um laço porta canas. Não menos importante, os fechos dos bolsos deverão ser de qualidade irrepreensível (a maior parte das vezes teremos que os abrir e fechar com uma mão apenas).
Vadeador e Botas
Chapéu e óculos
Por último, uma regra de segurança pessoal: nunca pesque sem óculos. Deste modo evitará acidentes com moscas que passam rente à nossa cara a uma velocidade de muitos km por hora, correndo o risco de atingir gravemente os nossos olhos. Um chapéu é sempre bem vindo nas horas de calor e, se possuir pala, protege-nos dos raios de luz reflectidos pela água.
Vamos às compras
Termino com um cálculo aproximado do custo parcial e total do equipamento que aqui foi mencionado. Com o terminar da época salmonídea não é raro encontrar artigos em saldo, basta ter a paciência para vasculhar o mercado. Há apenas a mencionar o facto de estes preços se referirem a um período anterior ao último aumento de IVA de 17% para 19%.
|
Cana |
100 |
|
Carreto |
32 |
|
Linha |
29 |
|
Conectores |
5 |
|
Leaders |
6 |
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Tippets |
5 |
|
Moscas |
10 |
|
Caixa de Moscas |
7 |
|
Lubrificação e limpeza da linha |
5 |
|
Colete |
60 |
|
Vadeadores |
100 |
|
Botas |
37 |
|
Total |
396 |
Maia Lopes
Felizmente... Há Trutas...!
Dia 1 de Março de 2022, 7:00 horas da manhã. Finalmente, cheguei à beira d'água, as primeiras luzes da alvorada emprestam matizes prateados às águas cristalinas e o omnipresente cheiro do rio (aquela mistura de aromas que nos enchem os pulmões e inebriam de felicidade) compensam largamente uma sofrida espera de longos meses de abstinência.
As mãos, nervosas, apressam-se na montagem do equipamento, em fazer nós, e tudo decorre com uma exasperante lentidão quase como que se as trutas não perdoassem os menos habilidosos ou os mais preguiçosos.
O primeiro lançamento é um desastre! As mãos estão tolhidas, enferrujadas pela falta de prática e penso baixinho: vá lá, vê se te concentras...!
Os cursos de água salmonídeos estão a desaparecer.Mais dois ou três lançamentos e tudo volta ao que era antes, fluidez, precisão e harmonia. Passados dez minutos, naquela velha e amiga corrente, a mesma de sempre, a primeira truta debate-se vigorosamente, desta vez em vão, pois acaba por vir parar às minhas mãos e enfrentar estoicamente a objectiva da câmara fotográfica que teima irritantemente em se perder entre os mil e um bolsos que me infestam o colete. Resultado? 35 centímetros de beleza intocada e selvagem...!
Uma outra vez me assalta a sensação de que tudo está certo, de que o mundo tem um sentido, e de que as coisas retomam o seu devido lugar no seio da criação, incluindo eu próprio. Felizmente há trutas...! Felizmente existe o rio Côa...!
Crónica De Uma Morte Anunciada
Este poderia ter sido o relato de pesca de uma possível abertura, num não menos possível rio Côa. Mas, infelizmente, nunca mais poderá ser assim. Ao longo dos tempos, o rio Côa sobreviveu a tudo. Resistiu às bombas de foguete, encheu as redes clandestinas, desintoxicou-se das lixívias, sulfatos e venenos artesanais, aguentou com as marras e armadilhas e, como se tudo isto não bastasse, até aos prolongados e asfixiantes estios de Agosto conseguiu dizer que não. Uma vida inteira não seria suficiente para escrever o historial de atentados que estas correntes, de água fresca e pura, sofreram ao longo dos tempos. No ano de 1755, escrevia o pároco de uma das freguesias ribeirinhas, em resposta a um inquérito feito na altura, devido ao terramoto que abalou o país, que aquela ribeira era muito boa de peixe. E mais seria ainda, se os homens respeitassem as leis do reino.
Mas os homens não cruzaram os braços. E a crónica desta morte anunciada abriu novo capítulo quando no ano de 1971 pude apreciar deleitado, na minha ingenuidade de criança, os primeiros traços no papel daquilo que viria a ser, 30 anos mais tarde, a albufeira do Sabugal.
Finalmente, o rio Côa soçobrou! Sucumbiu aos interesses do país. Morreu afogado!
Daquilo que, nesses tempos, se prolongava até à Cerdeira do Côa e que talvez perfizesse cerca de 50Km de rio repleto de trutas genuínas, apenas sobrou uma vintena de quilómetros. Uma terça parte do paraíso!
Que não doa a consciência a ninguém pelo facto de a barragem do Sabugal e a poluição impune terem decretado a morte do Alto Côa. Fomos todos nós, uns pela indiferença, outros pela ganância, outros ainda por incúria, que contribuímos para o actual estado de desgraça em que caiu este tesouro ecológico e turístico que a todos pertence.
Ou será que ninguém sabia que este troço de rio era sinónimo de um ecossistema - dos mais delicados que possa haver – único em toda a zona raiana e só igualado por meia dúzia de cursos de água em todo o País ou, mesmo até, em toda a Península?
No ano passado, na Freguesia de Quadrazais, em conversa com um emigrante que me confessava ter pescado por quase toda a Europa, afirmava ele que este nosso Côa era o melhor rio truteiro de entre todos aqueles que conhecia. Só Deus sabe quanta razão ele tinha!
Cuidar Sim, Repovoar Não...!
Troço de rio actualmente concessionado.
Pois é, mas agora já não há Côa. Ou melhor, resta pouco mais de uma dúzia de quilómetros, uma boa parte deles sob a gestão de uma Associação local de caça e pesca, a qual não parece estar a fazer uma gestão adequada à presente realidade. Isto porque o aumento da população truteira e a obtenção de uma pesca de qualidade terá que ser conseguida mediante uma conservação eficaz do rio para que passe a haver mais protecção, mais postos de alimentação e refúgios para o peixe, e não através de uma gestão qualquer, assente em repovoamentos sistemáticos, feitos de forma sistemática. De um modo geral, os repovoamentos, quando feitos de forma esporádica, não trazem consigo grandes prejuízos, o grande mal reside nos repovoamentos periódicos e repetidos a médio e longo prazo, estes sim nocivos ao ecossistema. As consequências resultantes desta prática traduzem-se quase sempre numa deslocação dos postos de caça, na redução da reprodução natural dos efectivos, ao mesmo tempo que provocam uma substituição das populações autóctones, sobretudo quando a qualidade das águas não está ao seu melhor nível. Outro dos efeitos possíveis é a hibridação, com todos os males que ela acarreta: produção de exemplares híbridos incapazes de reprodução, perda da identidade genética da população nativa, destruição dos complexos genéticos existentes, etc... Por outro lado, quando a administração central, ou qualquer outra entidade, repovoa os nossos rios com exemplares provenientes de viveiros ou de outros rios, tentando desta forma fazer face à pressão de pesca existente, não está a gerir o rio, mas sim a gerir os pescadores! Todas as trutas introduzidas pela mão humana no rio Côa deveriam ser obtidas a partir dos ovos de exemplares reprodutores nativos capturados no próprio rio ou, quando muito, provenientes da mesma bacia hidrográfica. Se esta é uma certeza reconhecida e aceite por qualquer biólogo do mundo inteiro, porque continuamos a repovoar com material genético de origem duvidosa? As trutas do Côa possuem (ou possuíam...) características genéticas que lhes permitiam sobreviver e adaptar-se perfeitamente aos condicionalismos próprios do rio em que nasceram. Temo pelo futuro daquela truta enérgica e combativa a que todos estávamos habituados.
O Pacote...!
O que resta do Rio Côa ainda poderá vir a ser a “catedral” da pesca à truta no nosso País. E para que isso se torne possível num futuro próximo é urgente tomar medidas correctoras. Eis o “pacote” de medidas que é urgente implementar:
1. Eliminar radicalmente as fontes de poluição do rio, ou seja, melhorar o tratamento de águas residuais e eliminar os vertidos directos ou efluentes resultantes de esgotos domésticos e industriais. (note-se que existem apenas 4 povoações capazes de poluição ao nível da rede de esgotos!)
2. Conseguir, junto da administração central, a gestão da totalidade do rio que sobreviveu à barragem do Sabugal (esta foi outra das calamidades ambientais) e entregá-la a uma entidade que goze de autonomia financeira, idónea, responsável e com experiência em matéria de gestão piscícola e ambiental (sugestão: Câmara Municipal do Sabugal, que constituirá para o efeito uma comissão gestora da concessão).
3. Decretar o encerramento da pesca desportiva na totalidade do rio até que a população autóctone se restabeleça e atinja um número considerável de exemplares capazes de fazer face à consequente pressão de pesca.
4. Melhorar o habitat através de: reabilitação dos ribeiros de desova, construção de abrigos e obstáculos “naturais”, controlo da acidez/alcalinidade da água, limpeza das margens e manutenção do leito do rio, reconstrução dos açudes, regulação do uso de água para rega.
5. Proibir definitivamente a pesca em todos os afluentes do rio considerando-os como zona de abrigo e desova.
6. Estabelecer troços de rio em que apenas se possa praticar a modalidade de pesca com mosca artificial e sem morte. Proibir o uso de iscos naturais.
7. Nos restantes troços, permitir apenas e ocasionalmente a captura de um exemplar troféu a cada pescador e em cada dia.
8. Aumentar a medida mínima de captura de 19cm para 30cm.
9. Cobrar uma taxa de licença diária a cada pescador no valor de 400$00 para residentes no concelho e 1.000$00 para os restantes.
10. Decretar um período hábil para a pesca desportiva compreendido entre 15 de março e 30 de Setembro.
Pescar é libertar...!
Obviamente, tal como todos já deverão ter percebido, estas medidas não surtirão qualquer efeito se não forem acompanhadas de uma rigorosa e constante fiscalização dos pescadores. Perdoem-me o desabafo, mas, no que toca a pesca desportiva, tenho vergonha de ser Português! Ao que parece, as primeiras referências à pesca sem morte surgiram em 1915 pela mão de um pescador, J. C. Mottram, que escrevia na altura: “uma truta é demasiado formosa e nobre para ser considerada simplesmente comida”. Ou de um outro pescador famosíssimo, Lee Wulff, que escreve em 1939, na sua obra “Hand Book of Freshwater Fishing” “um peixe desportivo é demasiado valioso para ser pescado uma só vez”. O primeiro troço de pesca sem morte em Portugal aparece no ano de 2001, na Ribeira de Moimenta, Concelho de Cavez, pela mão da Associação Portuguesa de Pesca à Pluma – APPP (honra seja feita ao seu nome). Estamos, portanto, atrasados 87 anos...!!
A educação e a reconversão de mentalidades também não deve ser descurada. Através de uma acção concertada ao nível da Câmara Municipal, Escolas, Instituições governamentais, Associações e Clubes de pesca, podem ser produzidas acções de formação e sensibilização, dirigidas aos jovens e futuros pescadores que frequentam as escolas do concelho. As infra-estruturas até existem! As instalações situadas à beira-rio, actualmente destinadas à produção de trutas arco-íris, depois de reconvertidas para o efeito, seriam um excelente local de aprendizagem e um verdadeiro local de culto.
Por outro lado, e eu sei que isto fala ao ouvido de muito administrador, falemos em números...
Depois de implementadas com sucesso as medidas referidas, não será muito difícil conseguir uma afluência diária de 40 pescadores (20 residentes + 20 nacionais). Praticando as taxas acima referidas, daí resultará uma facturação anual de cerca de 21.450 € , o que significa poder pagar o vencimento de 14 meses de dois Guarda-rios com subsídio de férias e de Natal incluídos. É por demais óbvio que os custos inerentes à manutenção de veículos e do próprio rio são largamente compensados pela imensidão de pescadores daí resultante. Afinal, o Sabugal sempre teve um tesouro turístico a correr-lhe aos pés!
Pensem nisso... Vão ver que os empresários e comerciantes em geral, a população que desfruta do rio e também os peixes, vão agradecer...
Acabo de visitar o website oficial da Câmara Municipal do Sabugal (na versão inglesa) e é com um misto de mágoa e revolta, provocado, quem sabe, pela ignorância de quem escreve, que leio as seguintes palavras: “A presença do rio Côa não é somente e apenas uma fonte de beleza. É também o lugar ideal para a prática de desportos e actividades recreativas, das quais, a pesca da truta é particularmente recomendada.”
Maia Lopes
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